terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

MOLHO QUE VIROU ESSENCIAL - TEXTO DE JOSÉ DOMINGOS RAFFAELLI


Molho que virou essencial
José Domingos Raffaelli

As relações entre o jazz e a música latina vêm de longe, desde as tentativas iniciais de Jelly Roll Morton e Duke Ellington. Todavia, a relação começou a ganhar vulto na década de 40, quando Stan Kenton e, principalmente, Dizzy Gillespie adotaram os ritmos latinos ao incorporarem percussionistas cubanos às suas orquestras. Foi o incrível Chano Pozo quem incendiou a big band de Gillespie ao mesclar os ritmos cubanos da sua conga aos frenéticos sons bebop de Gillespie, a partir do clássico "Manteca", um marco do jazz latino. Mas, a influência cubana já era palpável e, pouco antes, o compositor e arranjador americano George Russell contribuiu com sua importante obra "Cubana Be/Cubana Bop" para o repertório de Gillespie, cuja première foi apresentada no Carnegie Hall. A partir desses pioneiros, a percussão cubana nunca mais deixou de ser um ingrediente especial no jazz. Além dos percussionistas, que proliferaram como coelhos, cresceram as orquestras latinas em atividade com alguns jazzmen, como foi o caso do maestro Machito, que gravou com Charlie Parker, Flip Phillips e Howard McGhee. Outro band leader importante foi o compositor e arranjador Chico O'Farrill, ainda em franca atividade, que contribuiu com suas obras para o repertório das orquestras de Gillespie e Charlie Barnet. Por outro lado, o compositor americano Johnny Richards deu bastante munição para Kenton, principalmente com sua suíte "Cuban Fire".
O argentino Lalo Schifrin também contribuiu com obras de envergadura para o repertório de Gillespie, incluindo "Gillespiana" e "Tunisian fantasy", baseada no
clássico "A night in Tunisia", de Gillespie. As relações jazz & música cubana se acentuaram a partir de 1977, quando uma caravana musical americana tocou em Havana. Nessa ocasião, Gillespie descobriu Paquito D'Rivera (sax-alto) e Arturo Sandoval (trompete), que mais tarde tocaram na sua orquestra. A partir daí, o mundo do jazz alargou os horizontes dos talentos cubanos, aparecendo os pianistas Gonzalo Rubalcaba, José Maria Vitier, Horacio Durán e uma infinidade de novos nomes. Finalmente, com a invasão cubana na Flórida, a partir do final dos anos 70, uma nova geração de jovens filhos dos exilados cubanos e outros que nasceram em território americano aumentou substancialmente o contingente do jazz latino. Os novatos Tony Concepcion e Barry Rios (trompete), Papo Vasquez (trombone), Ed Calle (sax-tenor), Ed Maina (sax-alto), Nestor Torres (flauta), Michael Orta (piano), Nicky Orta e Julio Hernandez (baixo) e Archie Peña (bateria), entre muitos outros, formam esse contingente da nova geração bastante solicitada para gravações e concertos, injetando o tempero cubano na corrente sangüínea do jazz contemporâneo.

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(English) [Translation by José Sanches Perez]

THE SAUCE THAT BECAME ESSENTIAL
José Domingos Raffaelli

The relationships between the jazz and the latin music come from [a] long time ago, since Jelly Roll Morton and Duke Ellington's initial experiments. However, the
relationship began to increase in the forties, when Stan Kenton and, mainly, Dizzy Gillespie adopted the latin rhythms by incorporating Cuban percussionists to their
orchestras.It was the unbelievable Chano Pozo who burned the Gillespie's big band by mixing the Cuban rhythms of his "conga" to the Gillespie's frenetic bebop
sounds, since the classical "Manteca", a mark in latin jazz. But, the Cuban influence was already evident and, a little bit before, American composer and arranger George Russell contributed with his important work "Cubana Be/Cubana Bop" for the Gillespie repertory, whose "première" was showed at Carnegie Hall. From
these pionners, the Cuban percussion never stopped being a special ingredient to jazz. Beyond the percussionist, who proliferated like rabbits, also the active latin
orchestras increased with some jazzmen, as the case of maestro Machito, who recorded with Charlie Parker, Flip Phillips and Howard McGhee. Another important band-leader was the composer/arranger Chico O'Farril, until today in franc activity, who contributed with his works for Gillespie and Charlie Barnet orchestras' repertory. On the other side, the American composer Johnny Richards gave a lot of ammunition for Kenton, mainly with his "suite" "Cuban Fire". Argentinian Lalo Schifrin also contributed with hard works for the Gillespie repertory, including "Gillespiana" and "Tunisian Fantasy", based on classical Gillespie tune "A Night In Tunisia". The relationships between jazz and Cuban music became more frequent since 1977, when an American musical caravan played at Havana. On this occasion, Gillespie found out Paquito D'Rivera (alto sax) and Arturo Sandoval (trumpet), who later would play in his orchestra. From this time, the jazz world enlarged the Cuban talents horizons, emerging the piano players Gonzalo Rubalcaba, José Maria Vitier, Horacio Durán and an infinity of new names. Finally, with the Cuban invasion of Florida since the seventies, a new generation of Cuban exiled' young sons and others that were born in the American territory increased (substancially) the latin jazz contingent. The beginners Tony Conception and Barry Rios (trumpet), Papo Vasquez (trombone), Ed Calle (tenor sax), Ed Maina (alto sax), Nestor Torres (flute), Michael Orta (piano), Nicky Orta and Julio Hernandez (bass) and Archie Peña (drums), among many others, form this contingent of the new generation, [were] very solicited for record sessions and concerts, injecting the Cuban spice into contemporary jazz veins.
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MINHA OPINIÃO : José Domingos Raffaelli é um dos mais competentes e respeitados críticos de Jazz no Brasil. Achei interessante transcrever sua opinião sobre o "Latin Jazz", até porque coincide com a minha. E dos músicos citados por Raffaelli, tenho o privilégio de ser amigo pessoal de Lalo Schifrin, Paquito D'Rivera, Arturo Sandoval, Nestor Torres, Michael Orta, Ed Calle, Nicky Orta, Papo Vasquez e do grande baterista Archie Peña, venezuelano de nascimento, do qual vou postar um album em homenagem ao grande amigo Luiz Harding. Quem estiver de passagem por Miami pode encontrar alguns deles tocando no Van Dike Cafe ou no Clube de Jazz de Arturo Sandoval.
CB

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