terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

TETE MONTOLIÚ, LALO SCHIFRIN & CHANO DOMINGUEZ: análise de estilos.


Atendendo ao nosso grande amigo CAC, aqui vão algumas considerações sobre os pianistas Tete Montoliú, Lalo Schifrin e Chano Dominguez. (Todos os conceitos são exclusivamente meus, sujeitos ao gosto pessoal, aos erros de avaliação e absolutamente desprovidos de qualquer intenção de que se convertam em "verdade absoluta"). Os três pianistas, embora tenham vivido épocas diferentes, têm algo em comum: embora talentosos e competentes, não pertencem ao "primeiro time" nem podem ser considerados como "one of the best". Nada desairoso nisso, num universo de milhares de pianistas em constante evolução técnica, principalmente depois que o acesso às escolas de música, aos cursos e à informação proliferam - até mesmo "on line".

TETE MONTOLIÚ
Tete Montoliú foi, em seu tempo, considerado o pianista de jazz número um da Espanha - o que não é nada demais, uma vez que a Espanha não é exatamente o país dos pianistas de jazz; não havia, portanto, concorrência e não se sabe quem seria o "segundo melhor". Cego de nascença, Tete era talento puro, inato. Não por acaso sua maior influência foi Art Tatum, também cego. Mas Tete bebeu na fonte de outros grandes pianistas da velha escola, como Teddy Wilson e Errol Garner.Pessoalmente "se achava" melhor do que realmente era. Temperamento difícil, "marrento (pra usar os termos de hoje) e de língua solta pro auto-elogio e econômico no reconhecimento do talento de terceiros. Não joga no time dos meus preferidos, e considero Montoliú medíocre - se comparado com os luminares do instrumento. Meu amigo Leonardo Luz, que me apresentou a Tete, conta que ele, irritado, retirou-se de um concerto do Tamba Trio, onde Luiz Eça levantou a platéia com sua irresistível técnica e balanço. Eu acho que isso diz tudo.

LALO SCHIFRIN
Bem, todos leram o meu episódio da "cachimbada" do Lalo...É meu amigo querido, mas isso não impede que eu também o considere um pianista mediano. Todavia, em contrapartida, seu grande talento, musicalidade, competência e criatividade como compositor de trilhas sonoras o escalam no "primeiríssimo time" desse segmento, ao lado de Henry Mancini, Michel Legrand e André Previn, para citar apenas alguns dos "craques". Como pianista, Lalo sabe tudo do piano, conhece todos os caminhos harmônicos e do improviso mas... não tem sabor, é insosso. Basta ouvir Bill Evans, McCoy Tyner, Oscar Peterson - prá citar só três, para confirmar tal assertiva.

CHANO DOMINGUES
Dos três pianistas citados, Chano é o mais técnico, o que melhor domina o instrumento. Assisti a um concerto dele em Miami,no qual se apresentava antes de Michel Camillo. Sua técnica ofuscou a apresentação de Camilo - embora este seja, no geral, muito superior a Chano. Foi um susto que a platéia levou ao ver aquele desconhecido com uma técnica devastadora, tocando um respertório diferente. Mas Chano vive num universo próprio que não é o do Jazz ou do Latin Jazz; por ser também espanhol, como Montoliú, sua cabeça não é jazzistica. O que Chano faz com enorme categoria é uma "fusion" de música flamenca com jazz - o que o coloca num espaço próprio. Talvez por ter sido guitarrista flamenco, transporta para o piano as idéias da guitarra flamenca, na qual os espanhóis são imbatíveis. (Isso me lembra que Paco de Lucia, um dos maiores guitarristas espanhóis, ao gravar seu célebre solo em "Oceano" com Djavan, comentou: "quisera eu viver num universo musical tão rico como o de Djavan, para que minhas idéias fluissem com maior naturalidade".) E o que quiz dizer o grande De Lucia com isso? Simplesmente o seguinte: os caminhos da guitarra flamenca impõem limites. E é assim que eu vejo o piano de Chano Dominguez: uma técnica soberba a serviço de uma fusão que faz parte de seu próprio mundo musical - do qual não sou apreciador.

Meu amigo CAC: espero ter atendido à sua expectativa.
Abraço agradecido do
CB

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